Inferno: realidade ou mito?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 109/1969)

«O inferno existe ou é estória ultrapassada

Resumo da resposta: A crença no inferno é dificultada por representações inadequadas ou fantasistas dessa realidade bíblica, representações que é preciso dissipar.

A S. Escritura, pelas palavras de Cristo e dos Apóstolos, atesta a existência do inferno. Cf. Mt 25,34,41; Lc 16,19-31; Mc 3,28s…

O inferno é, antes do mais, o estado de alma em que o homem se coloca já aqui na terra, quando se afasta voluntariamente de Deus: conserva então o desejo do Bem Infinito, para o qual foi criado, mas alheai-se a esse Bem por livre escolha de sua vontade. Enquanto vive neste mundo, o pecador pode suavizar a dilaceração do seu íntimo, procurando não refletir sobre si mesmo. Caso, porém, morra voluntariamente avesso a Deus, o homem não pode deixar de sentir logo após a morte a tremenda dor de haver sido feito para o Bem Infinito e haver frustrado esse desígnio; o pecador torna-se assim uma contradição subsistente. É esta a primeira pena do inferno.

Além dessa pena, existe o chamado «fogo do inferno», que certa­mente não é o fogo visível desta terra, mas um estímulo físico que humilha o réprobo. Não se podem fornecer indicações mais precisas a respeito. A visão do inferno descrita pelos pastorezinhos de Fátima, com seus quadros sinistros, é uma apresentação acomodada à compreensão dos pequeninos do início deste século; a catequese então recorria a imagens fortes e impressionantes, artifício que hoje vai sendo posto de lado, em benefício de conceitos mais sóbrios e racionais.

Vê-se, pois, que não é Deus quem propriamente condena o homem ao inferno, mas é o homem quem se condena, afastando-se de Deus, o Sumo Bem. Caso um pecador, na vida póstuma, retratasse o seu ódio a Deus, seria imediatamente perdoado, como no Evangelho o filho pródigo foi imediatamente recebido por seu pai. Acontece, porém, que a morte, separando alma e corpo, estabiliza o homem nas últimas disposições com que deixa este mundo.

—X—

Resposta: A fé cristã, baseada nas Escrituras Sagradas, sempre ensinou a existência do inferno. Ainda recentemente no «Credo do Povo de Deus» Sua Santidade o Papa Paulo VI repetiu este ensinamento:

«Jesus Cristo subiu ao céu e virá de novo, mas desta vez com glória, para julgar os vivos e os mortos: cada um segundo os seus méritos os que corresponderam ao Amor e à Misericórdia de Deus, indo para a vida eterna; os que se recusaram até o fim, indo para o fogo que não se extinguirá jamais».

A dificuldade em crer no inferno provém freqüentemente de concepções insuficientes ou fantasistas, que encobrem o sen­tido autêntico da realidade «inferno». Bem entendido, o inferno aparece como algo que está na linha não somente da Justiça, mas também do Amor de Deus.

Nas páginas que se seguem, examinaremos: 1) os funda­mentos bíblicos da doutrina, 2) em que consiste propriamente o inferno, 3) ulteriores questões.

Sobre o inferno, já se encontram artigos em «P.R.» 3/1957, pág. 10-12; 31/1960, pág. 287-291; 17/1959, pág. 218s.

 

1. Os fundamentos bíblicos

Jesus deu freqüentemente a entender que, após esta pere­grinação terrestre, duas são as formas de vida possíveis para o homem: uma bem-aventurada, outra infeliz. É o que se depreende, por exemplo, de várias parábolas: a do joio e do trigo (Mt 13, 24-30), a da rede do pescador (Mt 13,47-50), a dos convidados à ceia (Lc 14,16-24), a das dez virgens (Mt 25,1-12; cf. Lc 13,27-29). Na parábola do ricaço e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31), o contraste é inculcado com a máxima veemência: na vida póstuma, poderão inverter-se os papeis que atualmente cabem aos homens, e não haverá pos­sibilidade de mudança. – As duas sortes são também apre­sentadas com muita ênfase no quadro do juízo final em Mt 25, 33-46: «Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo… Afastai­-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e para seus anjos» (Mt 25, 34.41).

Jesus ainda diz claramente:

«Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos homens, mesmo as blasfêmias que tiverem proferido. Mas aquele que tiver blasfemado contra o Espírito Santo, jamais obterá perdão; é réu de pecado eterno» (Mc 3,28s).

O pecado contra o Espírito Santo aqui mencionado não é senão o endurecimento mesmo ou a obstinação do homem que, após uma culpa grave, relute contra o chamado de Deus à conversão. Essa pessoa assim se fecha à graça do Senhor; já que explicitamente recusa penitência e perdão, não pode ser agraciada; Deus não lhe força a vontade. É este o único caso de pecado irremissível, dito «contra o Espírito Santo», porque ao Espírito Santo costumam ser atribuídas as inspira­ções da graça. Cf. «P. R.» 12/1958, pág. 485-487; 40/1961, pág. 149-155 (ulteriores explicações sobre «pecado irremis­sível»).

Os Apóstolos, por sua vez, afirmaram repetidamente as duas sortes: felicidade ou penar sem fim. Cf. Gál 5, 19-21; Ef 5,5; 1 Cor 6 9s; 2 Cor 2,15s; 4,3; 13 5; 1 Tim 5,6.11-15; 2 Tim 2,12-20; 2 Pe 2,1-4.12.14; 3,7; Jud 6.13; Tg 2,13; 44-8; 5,3; Apc 21,8.27; 22,15.

Os dizeres bíblicos referentes à sorte póstuma dos que se insurgem contra Deus, são violentos e «assustadores», o que se explica pelo fato de estarem vazados em linguagem oriental antiga, sempre rica em figuras e metáforas. Faz-se mister, pois, procurar entender as expressões da Escritura segundo a mente de quem as proferia.

É o que vamos tentar no parágrafo abaixo.

2. Em que consiste o inferno?

Quando se fala de «inferno», talvez aflorem à mente imagens terríveis: tanque de enxofre fumegante situado no centro da terra, diabinhos com garfos nas mãos para atormentar os réprobos, etc.

Quem reflete sobre essas imagens, não pode deixar de conceber um justo mal-estar; não parecem conciliar-se com a grandeza e a sabedoria de Deus. Na verdade, tais figuras tiveram sua razão de ser em épocas passadas, quando a mentalidade geral dos homens estava afeita à imaginação; Dante Alighieri na sua «Divina Comédia» muito contribuiu para dramatizar o inferno. Hoje em dia, porém, os homens preferem pensar as realidades mais como elas são em si, e menos segundo imagens. É por isto que se pergunta agora: em que consiste propriamente o inferno?

Para se entender o inferno, é preciso distinguir entre a «pena de condenação» e a «pena dos sentidos».

1) Pena da condenação

O principal tormento do inferno é algo de negativo, a saber, a carência da visão de Deus. Assim como a felicidade do céu consiste na posse ou na visão de Deus, assim a desgraça eterna consiste na separação de Deus.

E por que esta separação é de tal modo dolorosa? A resposta procede por etapas.

1) Deus é o Criador do homem. Criou por pura libera­lidade, a fim de fazer-nos participantes da sua bem-aventu­rança. Donde se seguem duas verdades de grande alcance:

a) no mais íntimo do homem está embebida uma tendência para o bem, e o Bem Infinito, que, em última aná­lise, é Deus. O homem nada quer nem faz que, sob certo ponto de vista, não lhe pareça bom. Em suma: o homem é essencial­mente um clamor dirigido a Deus.

b) Os preceitos que Deus dá ao homem, não são determinações arbitrárias, mas são indicações da via que o homem deve seguir para chegar ao Bem Infinito.

2) Sobre este fundo de idéias, o pecado é não somente uma desobediência à lei de Deus, mas também uma violação da tendência natural da criatura ao Criador. Pelo pecado grave o homem, com pleno conhecimento de causa e vontade deliberada (ou seja, empenhando toda a sua personalidade), se afasta de Deus, abraçando um bem finito como seu fim supremo. Nestes termos, o pecado não é apenas injúria ao Criador, mas também violentação da natureza humana. Em­bora deseje algum bem-estar no pecado, o pecador não encon­tra paz nem alegria no estado em que ele se projeta; cedo ou tarde percebe a desproporção existente entre qualquer cria­tura (volúpia, dinheiro, fama …) e a capacidade insaciável do seu próprio espírito. Enquanto, porém, se acha neste mundo, o pecador pode recorrer a paliativos: passando mais ou menos febrilmente de uma criatura a outra, procura encobrir aos pró­prios olhos a sua verdadeira situação de alma.

3) Admita-se, porém, que venha a morrer nesse estado de aversão a Deus e adesão à criatura … Que se dá então?

A alma do pecador se vê colocada diante da sua realidade sem a poder encobrir nem dissimular. Toma plena consciência de que se separou livremente de Deus, que a chamava à par­ticipação da sua vida divina; perdeu o Bem sem limites. Em outros termos: após a morte, com um olhar penetrante, a alma do pecador avalia a sua capacidade de infinito e percebe que jamais será preenchida; apodera-se de tal alma a impressão de ser um vazio imenso, destinado a ficar sempre aberto. Dora­vante existirá em contínua contradição consigo mesma: a na­tureza dessa alma clamará incessantemente pelo Criador; o clamor, porém, ficará vão, pois tal alma, por sua livre vontade, se terá para sempre incompatibilizado com o Senhor.

Mal podemos avaliar quanto essa situação é tormentosa, porque neste mundo nunca tomamos plena consciência da pro­fundeza da nossa alma.

4) A aversão a Deus redunda inevitavelmente em aver­são a todas as criaturas. Verdade é que os réprobos têm de comum entre si a revolta contra o Criador; todavia este laço não os alivia. Não amando o Sumo Valor, que é Deus, são absolutamente incapazes de amar algum valor inferior ou alguma criatura, por mais solidários que com ela se sintam; não se podem, pois, consolar mutuamente.

É por isto que o inferno é caracterizado como o estado em que a indigência fundamental do homem – amar – é frustrada.

5) O réprobo sente e detesta veementemente a sua pe­nosa situação. É incapaz, porém, de arrependimento, pois a morte nos confirma para todo o sempre nas disposições com as quais morremos.

Para se compreender isto, leve-se em conta a psicologia humana: a alma está de tal modo unida ao corpo que, para conceber novas idéias e novos afetos, ela necessita das suas faculdades sensíveis (sentidos externos e sentidos internos). Por conseguinte, separada do corpo, a alma se estabiliza nos conhecimentos e afetos com os quais ela deixa o corpo.

Diz-se, pois, que o pecador após esta vida sente remorso do seu pecado, não, porém, arrependimento. O que quer dizer: sente dor do pecado, enquanto é causa de suas penas, não enquanto é ofensa a Deus.

Não há dúvida de que, se a alma no inferno pedisse per­dão a Deus, seria imediatamente agraciada. O Senhor perdoa todo e qualquer pecado, como o pai do filho pródigo tudo perdoou a seu filho (cf. Lc 15, 11-32). É preciso, porém, que a criatura queira receber o perdão; Deus não o impõe, não contraria as disposições da criatura.

2) Pena dos sentidos

1. Juntamente com a pena máxima, que é o afastamento de Deus, o réprobo experimenta uma sanção positiva: a cha­mada «pena dos sentidos».

A Sagrada Escritura apresenta-a como fogo (cf. Mt 5,22; 18,8s; Apc 20,4; 21,8). É certo, porém, que não se trata do fogo comum terrestre, pois este consome e devora as cria­turas que atinge. Os teólogos o explicam do seguinte modo: em toda culpa grave, o homem de certa maneira «diviniza» alguma criatura (seu corpo ou bens externos); subordina-se a essa criatura, pedindo-lhe o que só Deus poderia conceder, isto é, a felicidade. Pois bem; o homem que termine a sua peregrinação terrestre em tal estado, passa a experimentar o jugo das criaturas; nisto há uma humilhação para a alma; já que todo pecado tem sua raiz no orgulho, compreende-se que a sanção do pecado tenha algo que contrarie o orgulho. – De resto, é difícil explicar a maneira como se exerce essa repre­sália das criaturas sobre os réprobos. Nem é necessário descer a pormenores sobre o assunto.

2. A propósito costuma-se perguntar o que julgar da famosa visão do inferno com que foi agraciada Lúcia, a vidente de Fátima.

Eis o teor exato da visão, na descrição mesma de Lúcia:

«A primeira visão foi a do inferno!

Ao dizer as últimas palavras…, a Virgem abriu de novo as mãos como nos dois meses passados. O feixe de luz reflexa pareceu penetrar na terra e nós vimos como que um grande mar de fogo e nele mergulhados os demônios e as almas, como brasas transpa­rentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, as quais flutua­vam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam jun­tamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, como as fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizavam e faziam estremecer de pavor… Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e as­querosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa.

Esta visão durou um momento, graças à nossa boa Mãe, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o céu; se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Assustados e como que a pedir socorro, levantamos os olhos para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:

«Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz».

Esta visão faz parte do chamado «segundo segredo de Fátima».

Ela sugere duas observações:

1) As aparições de Fátima e suas respectivas mensagens não pertencem ao depósito da fé cristã. Trata-se de revelações particulares, que os fiéis católicos têm a liberdade de aceitar ou não. Não há dúvida, em Fátima têm sido derramados nu­merosos benefícios espirituais e corporais sobre os homens – o que parece abonar a autenticidade das aparições. Mas, mesmo assim, estas não se impõem necessariamente à fé. – Veja-se a propósito «P. R.» 4/1958, pág. 169-174.

2) A descrição do inferno, no segredo de Fátima, é feita segundo a clássica maneira, pois se destinava a um público afeito a tal modo de conceber a sorte dos pecadores; em 1917 era nos termos acima que se falava do inferno; uma linguagem mais abstrata ou erudita estava fora de uso na catequese; seria talvez fadada a não ser compreendida.

Caso a Virgem SS. tenha realmente suscitado tal visão do inferno, Ela nada insinuou no campo da teologia; apenas adaptou-se ao entendimento dos destinatários, ficando enten­dido que os leitores posteriores fariam a respectiva «tradução» do texto, tradução proposta neste artigo de «P. R.».

3. Outras questões

Pergunta-se:

1) O inferno não terá fim?

– A fé responde negativamente. Com efeito, a alma hu­mana é imortal. Isto quer dizer que a sua sorte póstuma será tão duradoura quanto a própria alma.

2) Não poderia, porém, haver uma mudança na sorte da alma condenada?

– Poderia have-la se a alma quisesse trocar sua aversão por amor,… amor a Deus e ao próximo. Todavia acontece que, após a morte, a alma não pode mudar de disposições, como atrás foi dito.

Deus, por sua parte, não intervém nesta obstinação, mas respeita-a, já que é a atitude livremente abraçada por uma criatura que o Senhor fez para ser livre. Não força a criatura a participar de uma vida (comunhão com Deus) que ela re­jeita. Tal é a atenção que o Criador dá à livre opção do homem; que o quer rebaixar, tratando-o como autômato. Constranger a criatura livre seria, sim, propriamente um castigo infligido por Deus, seria ferir a maior dignidade do homem. Ademais, como observa o teólogo Prof. M. Schmaus, o réprobo não po­deria suportar um colóquio com o Amor, que ele odeia…

3) E Deus não aniquilaria o réprobo?

– Sem dúvida, Deus poderia pôr termo à desgraça do condenado, recorrendo ao aniquilamento. Todavia isto seria menos condizente com a Sabedoria divina.

Com efeito, o Senhor criou o homem para ser, e ser sem­pre (claro está que… à semelhança do Exemplar divino, o qual é sempre feliz).

A modalidade de ser feliz, Deus a entregou à livre opção do homem; este a pode frustrar. Contudo, o bem fundamental que é ser, existir, Deus o quis tomar a seus exclusivos cuida­dos; o Criador o dá irrevogavelmente; não o retira, mesmo que o homem não cumpra a sua parte, abusando do dom do Ben­feitor. O homem existirá sempre, como Deus planejou bondo­samente, mesmo que, em conseqüência de uma livre opção sua, não exista feliz. E note-se – esta existência imortal, ainda que vivida num estado de desgraça, não deixa de ser um bem ; continua a representar um valor no conjunto das criaturas, não é um absurdo que deva ser aniquilado. Com efeito, o réprobo, justamente por sua desventura, proclama que Deus é bom; a sua dor provém precisamente do fato de que ele reconhece em Deus a Perfeição Máxima; do seu modo, pois, ele afirma veementemente a grandeza e a bondade do Criador; por conseguinte, tem um significado positivo no plano do uni­verso. É por isto que Deus conserva a existência do réprobo.

4) E haverá muitas almas no inferno?

– Somente Deus pode responder com precisão a esta questão.

Hoje em dia, porém, os teólogos julgam mais e mais que a Misericórdia Divina oferece meios ocultos de salvação a todos os homens, até aos que parecem morrer em irredutível obsti­nação. Acreditam, portanto, que mesmo as pessoas que vivem longe de Deus, recebem cedo ou tarde (ao menos na hora da morte) a graça que os solicita à conversão.

O autêntico cristão crê no inferno, mas tem profunda confiança em sua salvação eterna. Aliás, era assim que proce­dia S. Paulo: quando em suas cartas falava da sorte póstuma, parecia seguro de que a morte seria, para ele, a consumação de um processo de união com Deus iniciado e, todos os dias, desenvolvido aqui na terra (cf. Flp 1,21-23; 2 Cor 5,1-5). Quem procura a Deus fiel e perseverantemente (apesar das falhas da sua natureza humana), não será frustrado; encon­trar-se-á um dia com o Senhor face a face.

5) E onde fica o inferno?

– Têm-se conjeturado várias hipóteses sobre a localização do inferno; todas vãs, porém.

Determinar o local do inferno pertence mais aos objetos da curiosidade do que aos da ciência teológica.

Muito mais importante para o cristão é avivar em si a consciência de que o inferno é primeiramente algo de imanente ou interior ao homem; se a pena máxima do inferno é a de não amar, bem se vê que o homem, já desde esta vida, pode ser, em seu íntimo, portador do inferno.

O inferno, em última análise, é sanção que o homem pro­nuncia sobre si mesmo com pleno conhecimento de causa e liberdade de arbítrio. Pronunciada primeiramente a título pro­visório (quando o homem peca na presente vida), esta sen­tença se torna irrevogável pela morte, e o próprio Deus, não faz senão reconhecê-la: «Quem não crê, já está julgado» (Jo 3,18), diz o Senhor, referindo-se àqueles que vivem neste mundo. Ao passo que a mentalidade primitiva tende a fazer do inferno a obra de Deus Carrasco, a genuína visão cristã apresenta o inferno como obra do homem violentador e car­rasco de si mesmo.

«Não serei meu próprio carrasco!»

 

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