Espiritismo: dimensões ocultas da realidade?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 401/1995)

por Pier Angelo Gramaglia
Em síntese: O livro de P. A. Gramaglia estuda os fenômenos mediúnicos ocorrentes no espiritismo, propondo a explicação psicológica que as ciências contemporâneas oferecem. Após expor as concepções antigas segundo as quais tais fenômenos eram causados pelo demônio ou por espíritos desencarnados, o autor mostra que o recurso ao além é desnecessário, quando se trata de elucidar os portentos do espiritismo. O presente artigo põe em relevo alguns tópicos salientes da obra, como são o culto dos OVNIS, as alucinações e a psicopatologia do espiritismo.

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Em nossos dias os fenômenos mediúnicos têm chamado a atenção do público com intensidade crescente, interpelando muitos espectadores mediante portentos, à primeira vista, inexplicáveis pela ciência.

Existe em Londres uma Spiritualist Association, que gere uma clínica onde alguns curandeiros curam com métodos mediúnicos cerca de 500 pacientes por semana. Tendo como base as estatísticas, sabe­-se que em 1961 havia na Alemanha cerca de 35.000 curandeiros; na França eles eram 30.000 associados, mas C. Bonnefou, Science et Magie, revela que, em 1970, somente em Paris prosperavam 40.000 curandeiros ao lado de 5.000 magos. Nos Estados Unidos, já em 1970 falava-se em uma média de 27 curandeiros para cada 100 médicos. Segundo La Stampa de 30 de março de 1982, haveria cerca de 70.000 magos na Itália, e na cidade de Turim eles somariam 3.000 sessões espíritas a cada noite (La Stampa, 17 de fevereiro de 1972). Publicações periódicas sobre o culto proliferam em toda parte; cada mago fatura cerca de um milhão de liras por mês e, quando se fala em quiromantes, astrólogos e feiticeiros, calculou-se em 1981 um volume de negócios na ordem de 900 milhões de liras (aproximadamente R$ 500.000,00) por ano.

Em vista dessa expansão do maravilhoso, Pier Gramaglia, formado em Patrologia (Literatura cristã antiga) pela Universidade de Roma, resolveu estudar com especial interesse a fenomenologia mediúnica. Disto resultou o livro “Espiritismo. Dimensões Ocultas da Realidade?” (tradução de Pier Luigi Cabra. Ed. Paulus, São Paulo 1995, 374pp., 130 x 200mm), em que o autor mostra como a psicologia e as ciências humanas em geral explicam tais fenômenos, sem recurso ao além ou à intervenção de espíritos desencarnados.

O livro é ricamente documentado e, por isto, muito útil ao público interessado. Recomenda-se a sua leitura, pois coloca em relevo o enorme potencial do psiquismo humano, potencial que o espiritismo denomina “capacidade mediúnica”, como se o médium fosse intermediário entre os espíritos desencarnados e os viventes deste mundo. O autor trata até mesmo da dermótica, ou seja, da visão através da pele: uma pessoa de olhos fechados pode passar os dedos sobre uma superfície em que haja um desenho; ela sente calor especial quando percorre os contornos da figura, de modo que identifica o objeto desenhado somente pelo tato, mantendo os olhos fechados.

Nas páginas seguintes, poremos em evidência alguns dos tópicos mais significativos da obra. Todavia duas observações prévias se impõem:

– proporemos os dados como P. A. Gramaglia os transmite em seu livro, usando geralmente as palavras deste autor, que nem sempre são muito claras; não temos, porém, como elucidar melhor o texto;

– os fatos a que se refere Gramaglia usando verbos de tempo presente, podem ser eventos do passado que já cessaram; também não temos como os controlar. Interessa, porém, saber que tais fatos ocorreram e talvez ainda ocorram.

1. O CULTO DOS OVNI

A crença na existência de Objetos Voadores Não Identificados (OVNls) e, consequentemente, de seres extraterrestres inteligentes tem­-se desenvolvido a ponto de suscitar um ritual destinado a evocar os habitantes de outros planetas e obter deles respostas e receitas, pois são tidos como muito numerosos e perspicazes. Há mesmo quem admita, entre esses extraterrestres, a existência de seres híbridos resultantes do cruzamento sexual de extraterrestres com os humanos. Há, portanto, sessões mediúnicas nas quais o médium diz captar mensagens desses seres aptas a introduzir no mundo uma nova era, marcada por paz e bonança. Eis o que Pier Angelo Gramaglia registra:

“Entre as associações voltadas ao culto dos OVNls basta lembrar algumas, entre as quais se deve destacar antes de mais nada a Giant Rock Space Convention, guiada por G. Van Tassel. Os fiéis reúnem-se em lugares tidos como cones particularmente receptivos, dispondo-se a captar mensagens astrais por via telepática; há também quem caia em transe, depois de cantar hinos junto com os amigos, até o momento em que um raio de energia, enviado por algum OVNI, entra em sua mente. Os cultos melhores ocorrem às sextas-feiras, à noite. Naturalmente não poucos destes fiéis garantem ter tido contatos pessoais com os extraterrestres, alguns dos quais perambulariam incógnitos sobre a Terra para visitar os que acreditam em sua existência. Famosa é a experiência do ítalo-americano Orfeo Angelucci: na noite de 23 de maio de 1952, ele teve a sorte de encontrar um homem e uma mulher recém-saídos de um disco voador e de, logo a seguir, viajar em um mundo paradisíaco, ouvindo a música das esferas celestes. Naturalmente, os extraterrestres prometeram a ele ajudar a humanidade sofredora, chegando mesmo a designá-lo como o novo evangelista de tão nobre missão; Angelucci até casou com uma extraterrestre de nome Lyra, mas nada nos contou a respeito da noite de núpcias” (p.212).

Existem outras sociedades, norte-americanas em maioria, voltadas para o contato com pretensos marcianos. Assim

a) a Understanding International, dirigida por D. W. Fry. Este médium diz ter encontrado um OVNI no deserto; embarcou nele e fez agradável viagem até Nova Iorque, ida e volta, em apenas meia-hora. Segundo refere, o extraterrestre Alan revelou-lhe que nos discos voadores sobrevivem os remanescentes da população terrestre supercivilizada que sobreviveu à destruição de uma guerra fatal e a radiações aniquilantes; fugiram para Marte em três naves espaciais. Os seres humanos, segundo esta concepção, encontrarão sua bem-aventurança final viajando em cômodas naves espaciais de um planeta para outro.

b) A Amalgamated Flying Saucer Clubs of America é dirigida por G. Green, que consegue comunicar-se por telefone com os extraterrestres, como dizem; estes aparecem em sua casa, muito perspicazes e inteligentes. Transmitem a G. Green projetos para eliminar a pobreza e a poluição, para resolver os problemas da automação, para financiar os programas públicos sem novos impostos, para elevar o teto da média da idade, para fazer a felicidade aumentar com a expectativa de poder viajar por entre as estrelas, num clima de amor e serviço fraternos.

c) A Aetherius Society começou em Londres, depois de “revelações” recebidas por G. King no ano de 1954. Este médium dizia receber visitas de marcianos, como Aetherius, Jesus Cristo e o chinês Goo-Ling. Transferiu-se para Hollywood (U.S.A.), onde os seus seguidores procuravam montanhas sagradas para entrar em contato com discos voadores depois de devotas peregrinações. G. King julga que o espaço é percorrido também por Forças Malignas e devastadoras (Black Magicians); por isto promoveu cruzadas de orações para neutralizar, mediante contatos com extraterrestres bons, ameaças que pudessem comprometer a existência do planeta Terra. G. King descreve as batalhas cósmicas entre os Poderes das Trevas e a Aetherius Society, batalhas semelhantes às histórias em quadrinhos de guerras nas estrelas contra seres estranhos que vagueiam pelo espaço, equipados com todo um arsenal eletrônico em busca de seres malvados que devem ser derrotados. King comunica pontualmente aos seus seguidores reunidos em oração os planos militares para enfrentar as forças cósmicas do mal e colaborar com as três Inteligências Interplanetárias que vivem sobre a Terra em corpos humanos.

d) O suíço Billy Meier afirma que desde 1975 já teve mais de uma centena de encontros com os cosmonautas das Plêiades. Foi-lhe revelado, como diz, que existem extraterrestres distribuídos em rígida hierarquia celeste: os extraterrestres inferiores são poderes negativos que descem sobre a Terra com os seus discos voadores para que os homens os adorem como divindades. Os homens melhores, ao morrer, tornam-se marcianos de luxo, ao passo que os que não alcançaram o estágio vibratório adequado são reciclados para outros planetas mais baixos do ponto de vista da evolução para ali serem reeducados. No topo da escala estão os ultraterrestres, seres de luz; estes ensinam, como os espíritos de algumas sessões mediúnicas, que Deus é simplesmente “a força da criação, a presença criadora do universo” e que a missão do homem é desenvolver-se sem cessar, a fim de passar a integrar a tripulação dos melhores discos voadores.

Há também quem reproduza em desenhos os habitantes de Marte. Assim a Sra. Smear, médium de Boston, apresenta imagens infantis de roupas compridas e chapéus de abas largas na cabeça, de acordo com o padrão norte-americano. Outra vidente produziu escritos e desenhos marcianos bem como um disco com um canto de amor marciano. Ainda outra senhora, uma vez por mês, em coincidência com as fases da Lua, diz comunicar-se em estado de transe com o planeta Marte. Acontece, porém, que visionários desse tipo foram parar no manicômio em mais de um caso.

Na Itália Germana Grosso acredita estar em cotidiano contato telepático com os extraterrestres; recolhe-se em meditação criando em si o vazio mental para ouvir melhor as mensagens telepáticas provenientes de um suposto mestre tibetano a narrar façanhas de etruscos, dos egípcios e dos atlântidas, sobre a superfície do planeta Júpiter; além disto, refere ela que existem na Terra, escondidas em bases secretas dentro de montanhas ou de oceanos, sentinelas cósmicas, prontas para intervir quando os homens turbulentos estão prestes a cometer erros irreparáveis; Germana viu seres extraterrestres de estatura elevada e cabelos louros, que andam como desconhecidos pelas ruas das cidades, principalmente na Suécia e na Noruega, mas também em Turim (onde vestem casacos de pele artificial); garante que canários, faisões e golfinhos são fauna importada de outros planetas; chega mesmo a desenhar, sob impulso telepático, depois de os considerar durante alguns dias, personagens e paisagens astrais. Cf. G. Dembech, Torino, Città Magica. Settimo Torinese 1981, p. 13.

J. M. Schiff, L’âge cosmique aux U.S.A., Paris 1981, pp.180-187, garante que a Lua é uma embarcação metálica avariada, sobre a qual trabalham extraterrestres, que desceram de seus discos voadores, e muitos milhões de homens, para lá transportados pelos americanos e pelos soviéticos a fim de explorar os recursos minerais!

Segundo muitas das mensagens de extraterrestres, os habitantes da Terra são selvagens quando comparados com os povos dos demais planetas, pois ainda se servem de dinheiro como mercadoria de troca; os seres do além já alcançaram uma economia baseada exclusivamente sobre a responsabilidade e a sinceridade nas relações entre produtores e consumidores.

Após referir todos estes casos, Gramaglia julga, com Ernst Bens, que vêm a ser a resposta do inconsciente coletivo (como diria Carl Gustav Jung) às ameaças e angústias que a humanidade contemporânea vem sofrendo; as receitas trazidas por marcianos à Terra indicariam a salvação que nenhum líder da humanidade atual está encontrando; a perspectiva de viajar pelo espaço e habitar em outros planetas é uma consolação para quem sente que a vida na Terra corre sérios perigos:

“A idéia de poder viajar em naves astrais satisfaz à necessidade de ter garantida a possibilidade de sobrevivência em uma nova arca de Noé, no caso de uma cada vez mais provável autodestruição nuclear” (p. 219).

2. ALUCINAÇÕES

Alucinação é percepção produzida de dentro para fora, sem que algum objeto fora do sujeito provoque tal percepção. Pode haver alucinações da vista, da audição, do olfato, do paladar ou mesmo do tato. Ocorrem mais freqüentemente em pessoas doentes, mas verificam-se também em pessoas sadias.

É muito interessante, por exemplo, o caso do aviador norte-americano Charles Lindbergh (1902-1974), o primeiro a atravessar o Atlântico num percurso de 24 horas contínuas de vôo. Foi vítima, repetidas vezes, de alucinações por causa do profundo cansaço. Enquanto era vencido pela sonolência, o subconsciente reagia com chamados automáticos, porque adormecer significaria morte certa. Começou a ver sobre a fuselagem, atrás dele, figuras humanas como espectros; via-as sem virar a cabeça, como se todo o seu crânio se tivesse tornado um grande olho, capaz de olhar para todos os lados; tais figuras, com estranhas vozes, podiam ser interpretadas como espíritos amigos que vinham guiar o vôo e encorajá-lo. Na realidade, porém, eram projeções do instinto de autoconservação, elaboradas de forma alucinatória pelo subconsciente, enquanto o aviador se encontrava em estado dissociado por excesso de cansaço; cf. p. 35s.

Conta-se também que na primeira metade do século XX houve uma autêntica epidemia de experiências paranormais no castelo de Versailles perto do Trianon (França). Dezenas de turistas ingleses caíram em transe durante a visita ao famoso castelo; tiveram então a alucinante sorte de rever toda a corte de Luís XVI com Maria Antonieta e seus jardineiros que lá viveram por volta de 1770; cf. p. 38.

Estes fatos têm seus paralelos na vida contemporânea, quando certas pessoas dizem ver a imagem de um parente ou amigo(a) falecido(a)…; parecem ver com tanto realismo que dificilmente acreditam numa explicação parapsicológica. Em tais casos, o inconsciente funciona projetando imagens que lhe são sugeridas pelas saudades, pelo medo, pela expectativa preconcebida… A pessoa, ignorando esse jogo de forças psíquicas (que certamente são poderosas), julga estar sendo visitada por um espírito do além; perturba-se e procura responder de algum modo a tais “visitas” – o que mais aumenta seu estado emocio­nal.. Atualmente a ciência explica tais fenômenos de maneira plausível, de modo que é oportuno dizê-lo ao grande público.

Em relação com esta temática está o subtítulo seguinte:

3. A PSICOPATOLOGIA DO ESPIRITISMO

P A. Gramaglia colheu na vasta bibliografia respectiva notícias sobre as conseqüências daninhas da prática espírita. Eis alguns dos tópicos apresentados:

Muitos médiuns foram levados ao esgotamento nervoso por ter abusado dos procedimentos necessários para entrar em transe. Entre esses procedimentos, está a cisão da personalidade: o médium julga que outra pessoa vai falar ou fala por ele; além do seu eu, haveria o eu do espírito desencarnado a manifestar-se mediante o médium; este pode crer que está possuído por um ser do além. Ora tal desdobramento ou duplicação fictícia da personalidade não pode deixar de ter conseqüências daninhas para o médium. Os procedimentos utilizados nessas sessões espíritas para a pretensa comunicação com os mortos podem abrir o caminho para o histerismo, para a obnubilação (obscurecimento) da mente, para a aceleração de ataques epilépticos e para modalidades graves de obsessão (obsessão que consiste em adotar os traços típicos de pessoas defuntas: vozes, expressões, escrita…).

Alguns médiuns foram arrastados até a loucura e a morte, precedidas, às vezes, por impulsos criminosos, por alteração da consciência ou da memória e por manias.

Além dos distúrbios mentais, houve casos de morte repentina, provocada por falsa revelação de acontecimentos trágicos; dando crédito a essas pretensas revelações, muitos clientes do espiritismo se deram por vítimas e sofreram as fatais conseqüências deste sugestionamento.

Muitos espíritas usaram amplamente o recurso ao copo ou à mesinha mediúnica (que se movem respondendo às interrogações dos consulentes) a fim de conhecer os cavalos que deveriam vencer nas corridas ou os números sorteados da loteria. No caso de previsões erradas, os médiuns (ou “os espíritos” propulsores do copo ou da mesa) sempre se saíram muito bem, alegando, como desculpa, a interferência de circunstâncias imprevisíveis, que modificam seus prognósticos.

Em suma, o livro oferece muitos outros resultados das pesquisas da psicologia moderna, que dissipam a crença em intervenções do além nos fenômenos ditos “mediúnicos”. É o que torna recomendável e valiosa a obra em foco.

 

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