Igreja: os boatos e a verdade (riqueza do vaticano)

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 127/1970)

«A ‘riqueza’ do Vaticano volta de vez em quando à baila. Causa dificuldades à fé de muitas pessoas retas.

Que se poderia dizer a propósito?»

Em síntese: Em sua recente visita à Sardenha (24/4/1970), o Santo Padre Paulo VI quis deter-se no bairro pobre de S. Elias na periferia de Cagliari, onde em tom sincero encarou a atitude da Igreja em relação aos subdesenvolvidos e indigentes. Manifestou então sua solidariedade para com todos os que sofrem; disse que sua visita era testemunho de seu interesse por promover junto às autoridades pú­blicas o bem dos necessitados. Levando, além de sua palavra, uma quantia de dinheiro para os habitantes de S. Elias, afirmou S. Santi­dade que o Papa não é rico. Na verdade, a Santa Sé tem vastos com­promissos no mundo inteiro; encarregada por Cristo de pregar a fé a todos os homens, compete-lhe sustentar missionários e obras ne­cessitados nos diversos continentes. O dinheiro que o Vaticano possui, é exíguo para satisfazer a tais tarefas. Quanto ao território da Cidade do Vaticano e aos haveres anexos, são vestígios da benevolência dos filhos da Igreja; tornaram-se indispensáveis para que a S. Igreja possa exercer a sua missão em prol do bem espiritual e material da huma­nidade.

—X—

Resposta: Há dois anos esteve em foco a questão do pagamento de impostos que a República Italiana parecia ter o direito de exigir do Estado da Cidade do Vaticano. Apesar dos rumores então disseminados, foi comprovado que a Santa Sé, em verdade, estava isenta (por acordo travado em 1963 entre o Governo italiano e o Vaticano) de pagar as referidas taxas; a respeito publicaram-se notícias tendenciosas, ou mesmo fal­sas, na imprensa esquerdista. A propósito veja-se «P. R.» 94 de 1967, pp. 438-447.

Aliás, já em «P. R.» 2/1958, pp. 64-70 e 125/1970, pp. 213-223, encontram-se artigos concernentes às pretensas riquezas do Vaticano e à origem do poder temporal do Papa. Estes e outros estudos transmitem a impressão de que os apregoados tesouros do Vaticano, na verdade, nada têm de fabuloso. Além do mais, eles têm sua razão de ser; devem-se à benevolência dos filhos da Igreja para com o Pontífice Ro­mano, e devem servir à obra apostólica da Igreja. Esta, sem posses materiais, sem autonomia temporal, não poderia cum­prir a missão que Jesus Cristo lhe confiou e que redunda em benefício de toda a humanidade.

Estas observações são confirmadas por recente discurso de S. Santidade o Papa Paulo VI. Aos 24 de abril de 1970, visitando a Sardenha, região notoriamente pobre, o Papa quis deter-se no bairro de S. Elias, nos subúrbios de Cagliari, a fim de se entreter com a população indigente do lugar. Aos seus ouvintes abriu então o coração de Pai e Pastor, considerando uma por uma as objeções que o mundo pobre poderia fazer à Igreja de hoje. Nesse discurso chama-nos a atenção a since­ridade do tom; Paulo VI tem clara consciência do que se diz sobre a potência temporal da Igreja e procura dar a respectiva explicação, evitando subterfúgios e palavras vazias. Também o leitor não italiano poderá encontrar nessas palavras do Sumo Pontífice uma resposta honesta às queixas (repetidas, às vezes, sem grande conhecimento de causa) que no Brasil se ouvem contra a face humana e aparatosa da S. Igreja.

Abaixo transcreveremos o discurso, cuja parte final parece particularmente interessante. Os títulos inseridos no decorrer do texto são da nossa iniciativa.

 1. Por que em Santo Elias?

«Eis-nos no bairro de S. Elias.

Desejamos Nós mesmo vir até aqui, entre vós, habitantes deste bairro, do qual Nos referiram que é destinado à gente que tem necessidade de tudo.

Poderá alguém perguntar: por que é que num dia tão breve e tão cheio de encontros belos, solenes e agradáveis, o Papa quer ir ao bairro de S. Elias, onde nada há de interes­sante para ver?

Respondemos: vós sabeis que Nós temos a grandiosa e tre­menda missão de representar – indignamente, mas verdadei­ramente – o Senhor, Nosso Senhor Jesus Cristo, aquele mesmo Jesus do Evangelho, que atribuiu a Si próprio as pala­vras do profeta Isaías: ‘Deus me enviou a levar a Boa-Nova à gente humilde’ (Lc 4,18). Se assim disse e fez Jesus, Senhor e Mestre (cf. Jo 13, 13), devemos também Nós fazer a mesma coisa: devemos ir procurar a gente humilde e pobre, em Ca­gliari, de modo semelhante ao que fizemos durante as outras Nossas viagens.

Eis-Nos, por isso, aqui no meio de vós, habitantes do bairro de S. Elias, filhos e irmãos caríssimos. Muito obrigado pelo vosso acolhimento.

 2. Que veio fazer o Papa ?

Mas parece-Nos ler nos vossos olhos uma outra pergunta. E agora, que é que o Papa vem aqui fazer, entre nós? Uma simples visita de curiosidade? Uma visita de publicidade? Que importância pode ter para nós uma visita de poucos minutos e de poucas palavras?

Respondemos ainda e reparai bem naquilo que estamos para vos dizer: Viemos aqui para vos demonstrar, e para de­monstrar a todos, que reconhecemos a vossa igualdade em relação a todos os outros homens, embora eles sejam talvez mais instruídos e desfrutem de maior bem-estar. Vós sois cida­dãos, com direitos iguais aos de todos os outros cidadãos: a sociedade não vos deve transcurar, nem desprezar. Dizemos ainda mais: vós sois cristãos, sois filhos de Deus e sois irmãos na Igreja Católica; tendes uma dignidade igual. Melhor, vós, precisamente porque sois pobres, tendes uma ‘dignidade emi­nente’ (Bossuet); sois, mais do que todos os outros, merece­dores de respeito e de interesse. Vós, no Evangelho, sois os preferidos, estais à frente dos outros e mais próximos do amor de Cristo e do grande dom do seu reino. Assim viemos aqui para vos saudar, para vos prestar honra, para reivindicar para vós, na Igreja e na sociedade civil, aquele lugar digno que vos compete; e, ainda, para elevar ao grau de direitos as vossas necessidades (e quantas serão!), desde a habitação suficiente e decente até o pão e o trabalho, a escola e a assistência sani­tária, a participação do bem-estar comum… para vós e, espe­cialmente, para estes vossos filhinhos.

 3. «Meras palavras não adiantam!»

Palavras! dirá alguém. E os fatos?

Respondemos de novo: sim, são palavras; mas são pala­vras boas e verdadeiras; e Nós ousamos esperar que elas sir­vam para vos dar ao menos algum reconforto. Não é porven­tura um fato também o reconforto? Não é acaso ‘das palavras que saem da boca de Deus’ que vive o homem, mais ainda do que do pão material? (cf. Mt 4,4). Foi o Senhor quem o disse. E é mesmo assim, porque vós, Nós o sabemos, tendes necessi­dade, antes de mais nada, de ser consolados; tendes necessidade de ser elevados moralmente, na alma. Não tendes vós uma alma? Uma alma que vale mais do que o corpo? Uma alma atribulada? Uma alma capaz de viver dos tesouros mais pre­ciosos, que são os do espírito? Ou seja: os tesouros da fé, da oração e da bondade?

 4. As palavras desencadeiam os fatos

Depois, Vós bem o sabeis, os fatos começam pelas pala­vras. Mesmo os fatos nos quais as vossas condições penosas vos fazem pensar: os fatos econômicos e os fatos sociais. Estes fatos, na verdade, ou seja, o bem-estar digno do homem, deri­vam das palavras, isto é, das idéias, dos princípios e dos bons raciocínios. E pronunciar aqui as palavras que devem preparar os fatos, não é já alguma coisa de positivo? Encontramo-Nos aqui, como em toda parte aonde vamos, qual advogado dos pobres; desagrada-vos que Nós sejamos o vosso advogado? Desagrada-vos que invoquemos aqui, nesta hora, de quem vos pode e vos deve ajudar, que faça qualquer coisa por vós, faça mais, faça bem e faça depressa? Vede: Nós, precisamente por­que somos enviado por Cristo, possuímos uma riqueza parti­cular, possuímos o amor. O amor é uma força. Queremos transmitir-vos este amor cristão, para vosso reconforto, para a vossa união e para a vossa esperança. Mas queremos infundi-lo e inculcá-lo também nos outros, isto é, nos ricos, nos res­ponsáveis pelo bem público, nos irmãos e nos ministros da Igreja; se todos estes se deixassem penetrar pelo amor cristão, não seriam mais facilmente e mais rapidamente melhorados os vossos destinos? E isto, sem ódio, sem egoísmo, sem revo­lução e sem demora.

 5. Mas o Papa não age ?

O diálogo, segundo quanto Nos é dado perceber, deve ainda ser continuado: por que é que, pergunta-se-Nos, o Papa não dá o exemplo?

Meus caros, aceitamos também esta pergunta. O Papa, sim, deve dar o exemplo. Mas o Papa não é rico, como tantos dizem. Nós temos mesmo dificuldades para suportar as despe­sas da Santa Sé, isto é, dos serviços necessários para o bom andamento central de toda a Igreja; depois, temos tantas ne­cessidades, às quais devemos dar remédio, no mundo inteiro, como são, por exemplo, as das missões. Mas procuramos fazer aquilo que podemos, com o coração desapegado dos bens econômicos e bem ligado às necessidades dos pobres e dos que sofrem. Não podemos fazer senão muito pouco, infelizmente; mas procuramos sempre dar um indício da Nossa boa vontade, por toda a parte. Também aqui queremos dar esse sinal, um pequeno sinal, de tal boa vontade.

Mas ao mesmo tempo queremos deixar também outro sinal, espiritual, um grande sinal de fé, de esperança e de amor, em nome de Cristo: a Nossa bênção».

—X—

Estas palavras, simples e francas como são, dispensam longos comentários.

«O Papa não é rico, como tantos dizem». Se ele administra bens temporais, ele os administra (mediante órgãos adequados, sem dúvida) em vista de obras ingentes esparsas pelo mundo inteiro, que exigiriam muito mais auxílio material do que o que lhes pode dar a Santa Sé.

Tal é a verdade. Seria para desejar que ela se difundisse mais e mais, a fim de não se proferirem objeções infundadas, se não injustas, contra a Santa Igreja de Cristo e não vacilasse a fé de tantos irmãos no Senhor!