Igreja, doutrina social: opção preferencial pelos pobres?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 247/1980)

Em síntese: A opção preferencial pelos pobres, apregoada pelos bispos latino­americanos reunidos em Puebla, tem sido objeto de controvérsias. Na verdade, ela significa atenção especial a todos os carentes, sendo que os carentes no plano material são mais desprovidos de recursos para se promover do que os abastados ou não carentes no plano material. “Pobres”, no caso, são não apenas os que não possuem os bens deste mundo, mas também os que não encontram o sentido da sua vida, os que se entregam às drogas, ao crime, os que sofrem pela velhice, pela doença, pela orfandade…

A expressão “opção” não é exclusivista. Por conseguinte, nunca seja pretexto pa­ra menosprezar algum ser humano, qualquer que seja a sua condição social.

Note-se outrossim que, antes de qualquer outra opção, os bispos em Puebla reafir­maram as grandes verdades da fé a respeito de Jesus Cristo, da Igreja e do homem. Em função desta opção primeira e básica (opção de fé) é que foram formuladas as demais opções (pelos pobres, pelos jovens, pela família, pela catequese…). O Documento de Puebla foi uma renovação enfática da fé dos pastores latino-americanos nas grandes ver­dades do Credo frente a tergiversações recém-ocorridas em nosso continente.

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Comentário: Muito se tem falado de opção preferencial pelos pobres realizada pelos bispos latino-americanos em Puebla (feverei­ro 1979). Tal expressão não é clara, à primeira vista; daí prestar-se a interpretações diversas. É o que explica, procuremos, nas pági­nas subseqüentes, penetrar no sentido que lhe quiseram dar os pas­tores latino-americanos reunidos em Puebla.

Examinaremos sucessivamente os termos “opção” e “po­bres”; ao quê acrescentaremos reflexões complementares.

1. Opção

A palavra “opção” significa propriamente escolha, preferência. Os bispos em Puebla fizeram opções:

1. A sua opção primeira e fundamental voltou-se para Cristo, a Igreja e o homem, vistos à luz da fé; cf. Documento de Puebla (DP) n° 170-334, ou seja, o cap. 1 da Parte II. A fidelidade dou­trinária ou a conservação íntegra e pura da verdade da fé preo­cuparam o S. Padre João Paulo II e os pastores reunidos em Puebla. Após anos de hesitações entre teólogos, tanto o papa como os bis­pos latino-americanos empenharam-se vivamente na III Conferência do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) por reafirmar as verdades fundamentais da fé católica. Aliás, referindo-se espe­cialmente à reta doutrina cristológica, dizia João Paulo II aos bispos reunidos em Puebla:

“Do conhecimento vivo desta verdade (sobre Jesus Cristo) dependerá o vigor da fé de milhões de homens. Dependerá também o valor da sua adesão à Igreja e da sua presença ativa de cristãos no mundo. Desse conhecimento deri­var-se-ão opções, valores, atitudes e comportamentos capazes de orientar e definir nossa vida cristã e de criar homens novos e, por conseguinte, uma humanidade nova pela conversão da consciência individual e social. De uma sólida Cristologia descerá luz sobre muitos temas e questões doutrinais e pastorais que vos propondes examinar nestes dias”.

A opção por Cristo foi certamente uma opção de fé baseada na Tradição dos Concílios da Igreja:

” É nosso dever anunciar claramente, sem deixar dúvidas ou equívocos, o mistério da Encarnação: tanto a Divindade de Jesus Cristo, tal como a pro­fessa a fé da Igreja, como a realidade e a força de sua dimensão humana e histórica” (Documento de Puebla n° 175).

Ora precisamente à luz da fé haveriam os pastores de exami­nar todas as demais questões propostas na pauta dos estudos da Assembléia. Recordava-lhes oportunamente o Papa João II no seu discurso inaugural da Assembléia:

“Vós vos congregais aqui não como um simpósio de peritos, não como um congresso de cientistas ou técnicos, por mais importantes que possam ser estas reuniões, mas como um fraterno encontro de pastores da Igreja. E, como pastores, tendes a viva consciência de que vosso dever principal é o de ser mestres da verdade. Não de uma verdade humana e racional, mas da verdade que vem de Deus”.

2. Tais observações ajudam-nos a compreender uma das opções especiais feitas pelos bispos no decorrer da Assembléia e registrada no documento de Puebla nos seguintes termos:

“A Conferência de Puebla volta a assumir, com renovada esperança na força vivificadora do Espírito, a posição da II Conferência Geral que fez uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos pobres, não obstante os desvios e as interpretações com alguns desvirtuaram o espírito de Medellin” (n° 1134).

A propósito do termo “opção, note-se que foi controvertido entre bispos em Puebla pelo fato de que podia sugerir exclusão. Ora justamente para evitar tal mal-entendido, os pastores quiseram precisar que a opção não se opunha à universalidade da missão da Igreja, que é voltada para todos os homens sem exceção, como a Encarnação do Filho de Deus beneficiou a todos sem exceção: “por causa de nós, homens, e da nossa salvação… nasceu de Maria Virgem” (Credo niceno-constantinopolitano, 381). Eis, as determi­nações que os bispos em Puebla acrescentaram ao tempo “opção”:

“O serviço dos pobres é medida previlegiada, embora não exclusiva, de nosso seguimento de Cristo” (n° 1145).

“Com seu amor preferencial, mas não exclusivo, pelos pobres, a Igre­ja…” (n° 1165).

“Jesus Cristo, Salvador dos homens, difunde seu Espírito sobre todos, sem acepção de pessoas. Quem, ao evangelizar, exclui do seu amor ainda que seja uma única pessoa, não possui o Espírito de Cristo. Por isto a ação apos­tólica tem de compreender todos os homens, destinados a se tornarem filhos de Deus” (n9 205).

Se alguém, através da sua atividade em prol dos pobres, chega a dar a impressão de estar esquecendo ou menosprezando os não pobres, contraria às intenções dos bispos em Puebla. Estes, com efeito, deixaram a propósito duas observações, que na sua brevi­dade são suficientemente significativas:

“A Igreja tem intensificado seu compromisso com os setores desfavore­cidos financeiramente, advogando a sua promoção integral. Esta atitude dá a alguns a impressão de que ela deixa de lado as classes abastadas” (n° 147).

“A ação positiva da Igreja em defesa dos direitos humanos e o seu comportamento em relação aos pobres tem levado grupos economicamente poderosos, que se consideram líderes do catolicismo, a se sentirem como que abandonados pela Igreja, que, segundo eles, teria deixado a sua missão ‘espi­ritual’ ” (n° 79).

Por certo, entre as pessoas abastadas e economicamente pode­rosa há muitas que têm sinceras disposições cristãs e desejam servir fielmente a Cristo, à Igreja e aos seus irmãos, mas se sentem fre­qüentemente feridos e como que rechaçadas pelas atitudes

(apa­rentemente) exclusivistas de certos agentes de pastoral; Jesus mesmo teve amigos da alta sociedade judaica, como Nicodemos e José de Arimatéia, dos quais não exigiu o despojamento de seus bens (cf. Jo 3, 1; 19, 38); as mulheres mencionadas por Lc 8, 1-3 serviram a Jesus “com os seus bens”; Lázaro, Marta e Maria não parecem ter sido pobres – o que não impedia Jesus de nutrir viva amizade por eles. São Paulo faz recomendações aos cristãos “ricos deste mundo” (1 Tm 6, 17-19), mas não manda que se tornem materialmente pobres.

Por conseguinte, se “opção” no caso não é exclusão, deve ser entendida como a atenção especial que o pastor deve dispensar às ovelhas mais carentes do rebanho precisamente pelo fato de serem mais carentes ou necessitadas.

Aliás, é em sentido análogo que se deverão entender as demais opções particulares realizadas pela catequese. . . Nada têm de exclusivo, mas apontam valores a serem especialmente acompa­nhados e fomentados na pastoral latino-americana.

Examinemos agora quem sejam, no contexto de Puebla,

2. Os pobres

Mais de uma interpretação foi proposta pelos comentadores do vocábulo antes e depois de Puebla:

1. Os pobres seriam os proletários, de acordo com a análise e a ideologia marxistas. Com outras palavras: segundo alguns intér­pretes, a Igreja deveria optar pelos pobres, isto é, pelas classes po­pulares ou pela classe explorada. Esta precisa de ser conscientizada e organizada contra os seus exploradores, já que a sociedade está dividida em duas classes antagônicas. Por conseguinte, optar pelos pobres vem a ser optar pelos explorados da classe proletária contra os exploradores do sistema vigente. Os pobres, entendidos como classe social no sentido do marxismo, devem ser aguçados para a luta de classes e aderir ao socialismo.

Tal seria a interpretação política, classista e revolucionária da opção pelos pobres.

A identificação ideológica entre pobres e proletários já era apregoada antes da Assembléia de Puebla por autores católicos latino-americano e europeus, fautores da teologia da libertação. Entre outros, merece ser citado Giulio Girardi:

“É preciso amar a todos, mas não do mesmo modo: aos oprimidos amamos libertando-os; aos opressores amamos, combatendo-os… O amor tem que ser classista para ser universal”.

Gustavo Gutierrez, autor latino-americano, escreveu:

“A unidade da Igreja é considerada, com razão, por L. Althusser como um mito que deve desaparecer se quer que a Igreja reconverta ao serviço dos trabalhadores na luta de classes… São cada vez mais numerosos os cristãos que pensam que a autêntica unidade da Igreja passa necessariamente pela opção pelos oprimidos e explorados deste mundo. O futuro da Igreja depende do número e do valor dos cristãos que cada dia reconhecem a necessidade da luta e se unem às fileiras do proletariado mundial” (Teologia de la liberacion p. 346 s).

Tais autores alegam que os pobres não se interessam propria­mente por valores de fé, mas, sim, por questões de ordem econô­mica, social e política, em virtude das quais são marginalizados e oprimidos. Por isto a resposta que se lhes deve dar, é o incitamento a revolução social, e não apenas a modificação acidental das estru­turas vigentes; é o socialismo revolucionário, e não o desenvolvi­mento econômico até hoje apregoado. – Quanto aos temas expli­citamente religiosos, fiquem subordinados aos interesses da ação revolucionária.

Não será necessário tecer considerações para evidenciar quão despropositadas são tais concepções; solapam as proposições fundamentais do Evangelho e da fé católica.

2. Em íntimo nexo com a interpretação acima, pode-se mencionar a seguinte: os “pobres” são os “empobrecidos”, ou seja, os despojados e oprimidos por classes dominantes. Assim, por exemplo, se exprime uma equipe de teólogos da CLAR (Conferên­cia Latino-Americana dos Religiosos):

“O amor ao pobre, há que traduzi-lo hoje na América Latina como amor ao empobrecido, isto é, ao despojado e oprimido. A pobreza aparece como o resultado de livres decisões dos homens” (Pueblo de Dios y comuni­dad libertadora. Bogotá 1977, n° 49).

“Nossa reflexão lança raízes no solo dos pobres: este é o lugar social donde dirigimos as nossas perguntas ao Evangelho. Fazemos isto, conscien­tes de que os pobres na América Latina não são simplesmente pobres, mas, sim, o resultado do pecado social que consiste em injusta organização da sociedade” (ib. n° 189).

Ora vê-se que também este conceito é tendencioso e ideoló­gico: não resulta de análise objetiva da realidade. Com efeito, existem injustiças, opressões e violência, que empobrecem a muitos; mas levem-se em conta outrossim as situações que geram pobreza independentemente da livre decisão dos homens: assim as condições dos órfãos, a velhice, as enfermidades, as secas, as inundações, os terremotos. . ., que são as genuínas e únicas causas de muitos quadros de pobreza. O documento de Puebla mesmo reconhece tais outros fatores no final do trecho seguinte:

“Ao analisar mais a fundo tal situação, descobrimos que esta pobreza não é uma etapa casual, mas sim o produto de determinadas situações e estruturas econômicas, sociais e políticas, embora haja também outras causas da miséria” (n° 30).

Consideremos agora uma terceira interpretação:

3. Pobres são todos aqueles que carecem…, sendo que os pobres, materialmente falando, merecem especial atenção porque não somente carecem, mas geralmente não possuem os recursos culturais e humanos para sair da sua carência.

Nesta acepção, “pobres” são também aqueles que, embora possuam bens materiais, carecem de bens espirituais ou de orien­tação e sentido de vida; são aqueles que experimentam o desânimo e o desespero dentro de habitações luxuosas…; os que procuram uma resposta para seus anseios no libertinismo, na droga, no prazer desenfreado…; são os que se entregam ao crime porque nunca tiveram a educação que pai e mãe oferecem de maneira insubsti­tuível… O próprio documento de Puebla explica a sua concepção de “pobre”, que, no caso, independe de condição social. Assim, por exemplo, se lê em tópicos diversos:

“Preocupam-nos as angústias de todos os membros do povo, qualquer que seja a sua condição social: sua solidão, seus problemas familiares, a falta de sentido que não poucos vêem na vida. E mais especialmente queremos hoje compartilhar as angústias que nascem de sua pobreza” (n° 27).

“Angústias provocadas pela violência da guerrilha, do terrorismo e dos seqüestros, efetuados por extremistas de sinais diversos, que comprome­tem igualmente o convívio social” (n° 43).

“Os Religiosos… acompanham os que sofrem por causa da injustiça, por causa da falta do senso profundo da existência humana e por causa da fome de paz, verdade e vida” (n° 743).

Em conseqüência, o documento de Puebla afirma que o melhor serviço a ser prestado aos pobres é o da evangelização:

“O melhor serviço ao irmão é a evangelização, que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente” (n° 1145).

Como se vê, a evangelização tem em mira o homem todo, seja no plano espiritual, seja no corporal. Antes do mais, ela o leva à vida de filho de Deus, cultivando a dimensão religiosa, que é con­gênita em todo homem e que, por certo, existe também nos pobres e oprimidos. Mas ela se interessa outrossim para que o filho de Deus viva em condições condizentes com a sua dignidade, usu­fruindo de todos os direitos que lhe tocam. Não há, pois, dicoto­mia entre o anúncio religioso e o atendimento material; este, aliás, sem aquele não poderia satisfazer às aspirações do pobre.

Faz-se mesmo oportuno dizer: a tarefa de dispor alguém a tornar-se filho de Deus ou a converter-se do pecado à graça é a tarefa palmar, própria e específica da Igreja. Quanto à luta contra as injustiças e à promoção do homem, a Igreja se empenha por tais objetivos, porque o homem não é apenas espírito, mas tais metas não são exclusivamente próprias da Igreja; esta não pode prometer a realização perfeita de todas as aspirações econômicas e profis­sionais dos homens, pois “a missão da Igreja não é de ordem política, econômica ou social” (Constituição Gaudium et Spes n° 42). A Igreja sabe que não tem competência para propor modelos alternativos à sociedade (DP n° 1211). Diz oportuna­mente Paulo VI na encíclica “Populorum Progressio” no 13:

“Fundada para estabelecer desde já o Reino dos céus e não para con­quistar um poder terrestre, a Igreja afirma claramente que os dois campos são distintos um do outro, da mesma maneira como são soberanos os dois poderes, o eclesiástico e o civil, cada qual no seu terreno próprio”.

Foi por tais motivos que o S. Padre João II, ao dirigir-se aos operários de Monterrey (México), ponderou o seguinte:

“Jesus Cristo…, antes de transformar a existência cotidiana, soube falar ao coração dos pobres, libertá-los do pecado, abrir seus olhos para um horizonte de luz e enchê-los de alegria e esperança” (texto citado pelo DP n° 1153).

Esta afirmação tem importância especial se se leva em conta o seguinte: Ludwig Feuerbach asseverava que o importante não é interpretar o mundo, mas transformá-lo. Desta tese se segue o primado da praxis ou ação sobre a reflexão. Ora a posição de Feuerbach foi adotada (talvez com matizes) por pensadores cristãos; estes quiseram dar a primazia à ação transformadora da sociedade, ficando as proposições da fé em plano secundário, dependente da praxis: para tais pensadores, “conscientização” significaria “tornar o pobre mais consciente da sua dor” ou mais amargurado e, em conseqüência, mais atiçado para a ação revolu­cionária. – Ora bem; frente a tais concepções o S. Padre João Paulo II e, com ele, os bispos em Puebla quiseram lembrar que a missão de Cristo e, por conseguinte, do cristão tem em mira não só as estruturas sociais, mas também, e primeiramente, o íntimo do homem pobre e a sua conversão para uma vida nova, oferecendo-lhe a libertação do pecado e da morte.

Enfatizando esta verdade, observa o documento de Puebla:

“A necessária mudança das estruturas sociais, políticas e econômicas injustas não será verdadeira e plena se não for acompanhada pela mudança de mentalidade pessoal e coletiva com respeito ao ideal de uma vida humana digna e feliz, que por sua vez dispõe à conversão” (n° 1155).

Destas afirmações do documento de Puebla seguem-se, entre outras, algumas conclusões, que vale a pena realçar especialmente:

1) O Pobre (materialmente falando), pelo simples fato de ser pobre, não é santo, como também o rico (materialmente falando), pelo fato de ser rico, não é répobro. Talvez o pobre, por ser pobre, tenha o coração mais livre e desimpedido do que o rico, sujeito a se deixar embotar e iludir pelas riquezas (cf. Mt 19, 22). Mas, como quer que seja, todos precisam de se converter a Cristo e a uma vida nova, professando explicitamente as grandes verdades da fé.

2) Não se pode dizer, portanto, que o pobre sem fé, por ser pobre, é um “cristão anônimo”

(… anônimo, porque ignora o Cristo, mas cristão, porque presumivelmente tem as virtudes características do cristão). Do mesmo modo, não se pode dizer que o marxista, pelo fato de lutar contra as injustiças vigentes, é um “cristão anônimo” (tal seria o caso de Che Guevara). Não; não é o pertencer a uma classe social que torna alguém cristão.

3) Alguns teólogos da libertação apregoaram o primado da atividade política sobre as demais tarefas do homem; conforme tais autores, o compromisso político deveria condicionar de maneira totalitária e radical todas as expressões do ser humano. Ora o documento de Puebla leva a ver que a militância política partidária está longe de ser um valor absoluto, donde se derive o sentido da vida humana. Não se pode sustentar a primazia da atividade política partidária sobre as demais; mesmo que não se engaje na luta política, o cristão concorre para o bem da polis ou da sociedade, se cultua a Deus e cumpre os seus deveres religiosos e civis.

4) Há quem queira contrapor “Igreja oficial” e “Igreja popular”, nascida do povo. A Igreja oficial seria a da hierarquia, que (dizem alguns injustamente) está comprometida com as classes dominantes e colabora com a opressão. Ao contrário, a Igreja popular brotaria do povo explorado, disposto a lutar por sua libertação sócio-econômica; essa Igreja popular seguiria o exemplo de um Cristo político, guerrilheiro e revolucionário.

Vê-se quão deletéria é tal distinção. Há uma só Igreja, que é também o povo de Deus, comprometida com o Cristo, o Evan­gelho, a verdade e a justiça. Essa Igreja una e única é fundada por Jesus Cristo; somente através dela Cristo exerce a sua ação santi­ficadora e sacramental. Separar-se dessa única Igreja significa constituir uma sociedade meramente humana, composta de pessoas unidas entre si e polarizadas por um ideal, mas desti­tuída da ação santificadora e sacramental de Cristo.

5) Condição indispensável para autêntico serviço aos pobres é a conversão pessoal de cada cristão ao Evangelho e aos seus ditames. E necessário que todos aqueles que se propõem anunciar a Boa-Nova saibam levar estilo de vida austera e despojada, conver­tendo-se de uma conduta pecaminosa ou, ao menos, fútil e leviana para um comportamento seriamente inspirado pelas exigências de renúncia e compreensão imposta pelo Senhor Jesus aos seus se­guidores. E o que, em mais de um tópico, afirma o documento de Puebla, como se pode depreender abaixo:

“O serviço do pobre exige conversão e purificação constantes, em todos os cristãos, para conseguir-se uma identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres”

(n° 1140; cf. n9 1147. 1157s).

Eram estas algumas considerações que convinha propor ao público estudioso a respeito da controvertida expressão “opção pelos pobres”. Vê-se que esta não contradiz à mensagem do Evan­gelho, que é sempre universal ou destinada a todos os homens.

Ver a respeito:

KLOPPENBURG, B., Puebla: opcion preferencial por los pobres. CE LAM. Bogotá

1979.

TRUJILLO, A. L., Perfiles de Puebla. CE LAM, Bogotá 1979.

ALMEIDA CUNHA, R. I., A opção preferencial pelos pobres, em: Convergência, a. XIII (1980), n9 130, pp. 93-121.

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