Por que não sou ateu

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 361/92)

Em síntese: O artigo examina três razões que podem levar alguém a não ser ateu: 1) o testemunho da ciência contemporânea; 2) a pré-história e a história da humanidade; 3) a insuficiência do homem para bastar a si mesmo. Considera outrossim cinco dificuldades para crer: 1) o mal no mundo; 2) o desconhecimento da doutrina da fé; 3) obstáculos de ordem moral; 4) o contratestemunho de pessoas de fé; 5) o claro-escuro da fé.

O ateísmo é uma atitude que se vai difundindo em nossa sociedade, nem sempre sob a forma de militância anti-religiosa, mas freqüentemente como indiferentismo; dir-se-ia que o homem contemporâneo não precisa mais de Deus, pois consegue, mediante os avanços da ciência e da técnica, criar para si mesmo um bem-estar que lhe dá certa satisfação, tida como suficiente.

Esta atitude suscita a muitos as questões: “Por que não és ateu também tu? Será que ainda precisas das muletas ou do tapa-buraco da Religião para te equilibrares na vida?”

A resposta a tais perguntas fará o conteúdo deste artigo, que vamos distribuir em duas Partes: I. Por que não sou ateu? II. Dificuldades para crer hoje em dia.

I. POR QUE NÃO SOU ATEU?

Três principais razões me impedem de ser ateu:

1.1. A Ciência Contemporânea

Houve tempo em que se dizia que a ciência é inimiga da fé. Atualmente, ao contrário, verifica-se que a ciência tende a reconhecer cada vez mais os vestígios de uma Inteligência e de um Poder Supremos, que têm o nome DEUS. O mundo, com suas dimensões vertiginosamente grandes e pequenas, não pode ser produto do acaso, como hoje geralmente se reconhece, mas dá testemunho do Criador,… Criador distinto da natureza e anterior a ela, não força cega que vai evoluindo e se identifica com o próprio mundo. São muitos os testemunhos de grandes cientistas que apontam a existência de Deus:

Max Plank (1858-1947), físico alemão, criador da teoria dos quanta, Prêmio Nobel 1928:

“Para onde quer que se dilate o nosso olhar, em parte alguma vemos contradições entre Ciências Naturais e Religião; antes, encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências Naturais e Religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma para a outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão”:

Albert Einstein (1879-1955), físico judeu alemão, criador da teoria da relatividade, Prêmio Nobel 1921:

“Todo profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois ele não pode admitir que ele seja o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que ele contempla. No universo, incompreensível como ele é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. – A opinião corrente de que eu sou ateu, baseia-se sobre grande equívoco. Quem a quisesse depreender de minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento”:

Werner von Braun (1912-1977), físico alemão e pesquisador da energia atômica:

“Não se pode de maneira nenhuma justificar a opinião, de vez em quando formulada, de que na época das viagens espaciais temos conhecimentos da natureza tais que já não precisamos de crer em Deus. – Somente uma renovada fé em Deus pode provocar a mudança que salve da catástrofe o nosso mundo. Ciência e Religião são, pois, irmãs e não polos antitéticos”.

M. Hartmann (1876-1962), Diretor do Instituto de Biologia Max Plank:

“Os resultados da mais desenvolvida ciência da natureza ou da Física não levantam a mínima objeção à fé num Poder que está por trás das forças naturais e que as rege. Tudo isto pode aparecer mesmo ao mais critico pesquisador como uma grandiosa revelação da natureza, levando-a a crer numa todo-poderosa Sabedoria que se acha por trás desse mundo sábio”.

Guglielmo Marconi (1874-1937), físico italiano, inventor da telegrafia sem fio, Prêmio Nobel 1909:

“Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto não só como fiel cristão, mas também como cientista”.

A.S. Eddington (1882-1946), físico e astrônomo britânico: “A Física moderna leva-nos necessariamente para Deus”.

Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor no campo da Física, com mais de 2.000 patentes:

“Tenho enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus!”

Tais testemunhos se poderiam multiplicar. Falam eloqüentemente.

1.2. Pré-história e História da Humanidade

Quem estuda a pré-história, sabe que os vestígios do homem pré-histórico são três: 1) a confecção de instrumentos burilados (pedra lascada para ser machado, arma, balaço…); 2) produção do fogo; 3) sepultamento dos mortos.

Com efeito. O sepultamento dos mortos está entre as primeiras expressões do ser humano, como a fabricação de instrumentos rudimentares. Isto quer dizer que, logo que a inteligência humana desponta, ela se manifesta também pelo respeito aos mortos (coisa que os animais irracionais não praticam); o respeito aos mortos, por sua vez, está associado à noção de vida póstuma, vida com a Divindade.

Por conseguinte, desde que o homem é homem, ele se revela religioso; a fé (bem ou mal estruturada) lhe é congênita. Por isto também ela se manifestou em toda a história da humanidade. O fenômeno do ateísmo é relativamente recente; tal fenômeno não pode ser tido como indício de progresso ou aperfeiçoamento da humanidade, como se dirá sob o título seguinte.

1.3. O Homem não basta a si mesmo

As aspirações, inatas no homem, à Vida plena, à Felicidade integral, à Verdade sem erro, ao Amor sem traição, à Bondade sem falhas… não são preenchidas pelos bens passageiros desta vida. O homem não encontra em si nem nas coisas visíveis que o cercam, a resposta para os seus anseios mais espontâneos. A resposta insofismável para as perguntas básicas “De onde venho? Para onde vou?” não lhe é dada por criatura alguma. Daí a necessidade de se admitir um Absoluto sem deficiências, que seja o Norte polarizador das aspirações do homem; esse Norte está fora do homem; é Deus, ao qual diz S. Agostinho: “Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões 11).

Estas afirmações são comprovadas pela recente experiência dos países do Leste europeu: tiveram governos que tentaram organizar toda a sociedade incutindo a não existência de Deus… Tais governos implodiram, fracassaram fragorosamente. Querer que o homem viva prescindindo de Deus equivale a sufocar o que nele há de mais autêntico, como nota o grande psicólogo Carl Gustav Jung (1875-1961):
“Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de trinta e cinco anos,, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão de sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu a seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria”:

O afastamento de Deus parece desmantelar o ser humano, tirando-lhe o seu eixo ou referencial; só a recuperação da fé recompõe a personalidade.

Seja citado outrossim o texto do Cardeal Josef Ratzinger, que observa a necessidade que temos, de encontrar um TU,… um TU que nos responda cabalmente e que não achamos em criatura alguma:
“A solidão é, sem dúvida, uma das raízes básicas de que surge o encontro do homem com Deus. Onde o homem experimenta a solidão, verifica, ao mesmo tempo, quanto a sua vida representa um grito pelo tu e quão pouco o homem é apto a ser um puro eu, encerrado em si mesmo.

A solidão pode manifestar-se ao homem em profundezas diferentes. Primeiro, ela satisfaz-se com o encontro de um tu humano.

Mas desdobra-se um processo paradoxal descrito por Claudel: cada tu que o homem encontra, revela-se finalmente como uma promessa irrealizada e irrealizável, porque todo tu, no fundo, representa de novo uma desilusão; há um ponto em que encontro nenhum é capaz de vencer a derradeira solidão. E exatamente o achar e o ter-achado voltam a ser um retorno à solidão, um grito pelo tu real e absoluto’ (Introdução ao Cristianismo, São Paulo 1970, p. 68).

Examinemos agora as principais

II. DIFICULDADES PARA CRER

Consideraremos cinco focos problemáticos:

II. 1. O Mal no Mundo

Muitas pessoas perguntam: “Pode Deus existir, se há tanta miséria e maldade no mundo que Ele criou?”

Respondemos: o mal não é uma realidade positiva; é, antes, uma carência ou a falta de algo que deveria existir e não existe. Assim a cegueira é um mal, porque é carência de visão em quem a deveria ter; a violência é um mal porque é carência da finalidade devida no comportamento de um homem inteligente e hábil…

Isto significa que o mal não tem causa direta. Ele só pode ser causado indiretamente, indiretamente por um agente limitado, capaz de falhar. Ora, por definição, Deus é perfeito ou incapaz de falhar; por isto não pode ser causa – nem indireta – do mal; só uma criatura pode agir com falhas ou agir mal.

É claro, porém, que, ao produzir as suas criaturas, Deus só podia criar seres limitados, falíveis, suscetíveis de errar. Não pode haver dois seres infinitamente perfeitos e infalíveis, porque não pode haver dois deuses.

Todavia o Senhor não é impassível perante o mal que as criaturas sofrem. Diz S. Agostinho que “Ele nunca permitiria o mal se não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda maiores”. A fé cristã o atesta apontando para a figura do Cristo que assume a dor e a morte do homem, a fim de transfigurá-las mediante a ressurreição.

II. 2. Desconhecimento da Doutrina da Fé

Outro obstáculo à fé é o desconhecimento da sua mensagem ou os mal-entendidos a respeito daquilo que a fé ensina. Pode haver pessoas que só conheçam a religião infantilmente apresentada e, por isto, a rejeitam em nome da razão esclarecida. Uma vez, porém, elucidados os pontos obscuros, tais pessoas podem perceber que a fé não é ridícula nem alienante, mas é a expressão mais nobre da personalidade, pois implica um ato da nossa faculdade mais digna – a inteligência (não um sentimento cego) – aplicada ao Ser mais digno – o Absoluto, o Eterno, Deus.

II. 3. Obstáculos de Ordem Moral

Muitas vezes o ato de fé encontra resistência no ser humano, não porque sérias objeções teóricas se lhe oponham, mas porque tal pessoa cede a um tipo de vivência incompatível com a fé. Diz a sabedoria popular: “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”. Isto quer dizer que uma pessoa de brio que pense religiosamente, mas viva de modo destoante, deve sentir a necessidade de superar essa incoerência; ela o fará ou adaptando sua vida ao seu pensamento religioso ou, se não tiver forças para tanto, adaptando o seu modo de pensar ao seu modo de viver desregrado.

Este último caso, em nossos dias, é assaz freqüente, pois o ritmo de vida da sociedade incute o hedonismo ou a busca de prazer (a qualquer preço). Incute também cobiça ou a sofreguidão de ter mais, que deteriora o ser ou o porte ético-religioso do indivíduo. Assim se explica que várias pessoas, após anos de fé tranqüila, repentinamente abandonem a religião; fazem-no não por terem lido tal ou tal livro ateu, mas simplesmente porque foram cedendo a impulsos e paixões desordenados.

II. 4. O Contratestemunho das Pessoas de Fé

É certo que também as contradições na vivência das pessoas religiosas escandalizam e afastam a quem as observa. A propósito diremos que, sem dúvida, o testemunho coerente das pessoas religiosas facilita a adesão de fé dos observadores, ao passo que o mau exemplo a dificulta. Todavia quem crê, deve dar-se conta de que:

– crê porque descobriu a Deus e deseja responder ao Bem Supremo. Este é o traço central de toda profissão de fé religiosa;

– crê, porém, em companhia de seres humanos, aos quais é inerente a fragilidade. Essa fragilidade, contudo, não impede que cada pessoa fiel encontre em Deus a sua plena resposta. Deus se dá a quem o procura, independentemente da conduta dos companheiros de caminhada.

II. 5. O Claro-escuro da Fé

As proposições da fé são claro-escuras, nunca evidentes como 2+2 = 4. Sem dúvida, elas têm suas credenciais, que as tornam acreditáveis e que todo homem pode investigar; se o fizer, chegará à conclusão de que é razoável ou é inteligente crer. Por isto, quando acredito, não abdico da minha razão, mas, ao contrário, exercito a minha inteligência; esta me diz que a Verdade não acaba quando acaba meu raio de percepção intelectual. A fé ultrapassa o alcance da minha inteligência, mas não lhe contradiz; apenas leva a ulteriores etapas a demanda da Verdade.

O fato de que as verdades da fé ultrapassam o alcance da nossa inteligência, de um lado, nos deixa sôfregos e insatisfeitos; mas, de outro lado, é fonte de alegria e paz. Com efeito, como diz Pascal, o homem foi feito para se ultrapassar constantemente ou para se realizar em algo maior do que ele mesmo; o homem é resposta pequena demais para o próprio homem; só o Absoluto ou Deus o sacia.

Os pensadores gregos perceberam este paradoxo, quando definiram o homem como um “ente de fronteira”, posto em equilíbrio instável entre os animais e os deuses; sim, para os gregos, os deuses eram consumados em sua existência imortal e bem-aventurada; os animais também bastam a si mesmos, desde que encontrem alimento e o necessário para sobreviver. O homem não é assim: nem goza da satisfação dos deuses nem se dá por realizado apenas com a sua existência animal; ele é repuxado, de um lado, pelo peso da sua animalidade e, de outro lado, pela insaciável sede do Absoluto; não lhe basta viver simplesmente as dimensões do homem terrestre para ser autenticamente humano. Se há consumação para o homem, há de ser num valor que ultrapasse os limites da sua natureza. Em conseqüência, não há por que nos assustarmos quando verificamos que a mensagem da fé é trans-racional; é precisamente esta nota que permite à fé levar o homem à sua genuína realização; uma mensagem meramente filosófica pouco significado teria no caso.

Estas ponderações explicam o porquê do incômodo resultante do claro-escuro da fé: é condição para que a nossa entrega a Deus tenha o valor de um gesto livre; é também o indicio da autenticidade mesma da fé. A mensagem de Deus é suficientemente clara para que a adesão do homem seja razoável e inteligente (não cega, nem meramente sentimental), mas é também suficientemente obscura para que o nosso Sim seja livre. Deus quer ser aceito e amado livremente por criaturas livres. Somente com o progresso da vida espiritual, com o amadurecimento e a consolidação da fé é que a penumbra se vai clareando, as sombras se vão dissipando até que cederão um dia à plenitude da luz ou à visão beatifica.

III. CONCLUSÃO

Não sou ateu, porque sei que, se procurasse viver sem Deus, sem a convicção de que existe um Bem Infinito que me fez e aguarda, eu não poderia responder às questões fundamentais de todo ser humano: “Donde venho? Para onde vou? Por que trabalhar? Por que sofrer? Por que ser honesto?”

Tal convicção não é muleta nem tapa-buraco em meu comportamento. Se fosse muleta, o homem sem Deus seria mais ele mesmo, mais adulto e maduro. Ora a experiência prova justamente o contrário; o homem sem Deus pode ser uma pessoa momentaneamente tranqüila, mas cedo ou tarde é chamada a um confronto com a questão do sentido da vida: Vale a pena viver, lutar em prol do bem e sofrer, para um dia extinguir-se sem mais, como a chama de um pavio? – Responder sim a esta pergunta é antinatural. Podemos crer que, se em nós existem aspirações naturais ao Transcendente, elas não são vãs. Convenço-me disto quando olho em torno de mim e observo que, se nos homens existe olho, também existe luz (resposta para a aspiração natural do olho); se nos homens existe ouvido, existe som; se nos homens existe pulmão, existe ar; se nos homens existe estômago, existe alimento. E digo: Por conseguinte, se nos homens existem fome e sede inatas de Vida, de Felicidade, de Amor, de Bondade, de Verdade, deve haver… a Vida, a Felicidade, o Amor, a Bondade, a Verdade, que, em última análise, é Deus. Em caso contrário, o homem seria a mais absurda e miserável de todas as criaturas – o que é falso.

 

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